A enfermeira Margarida Oliveira escreve sobre a mulher ostomizada




Ser mulher é viver a mesma vida quantas vezes for preciso, é lutar pelo que está perdido e mesmo assim sentir-se vencedora. É viver o ontem, o hoje e o amanhã. É, simplesmente, viver uma dúvida cheia de certeza, procurar a nuvem quando o dia é de pleno sol e conseguir o sol quando o dia é de chuva.

Ser mulher é chorar de alegria e, muitas vezes, sorrir na tristeza. É acreditar no inacreditável. É esperar o inesperável.

Ser mulher é ter vontade de viver entre desamores, desilusões, traições e deceções. É saber que depois do hoje existirá um amanhã. É trilhar caminhos difíceis, ter a solução diante do problema, é viver no meio no dilema.

Uma ostomia tem origem na palavra grega estoma, significando abertura de origem cirúrgica, para desviar, temporária ou permanentemente, o trânsito normal da alimentação e/ou de eliminações.

Caracteriza-se pela exteriorização do órgão através da parede abdominal, com o objetivo de eliminação fecal/urinária.

Após essa cirurgia, as mulheres passam a utilizar um saco coletor de fezes/urina “colado” ao abdómen perdendo o controlo do ato de evacuar/urinar, condição importante para a vida em sociedade.

Esse procedimento traz um grande impacto à vida da mulher, pois acarreta alterações físicas visíveis e significativas do corpo, privando-a da sua integridade, dinamismo e autonomia, causando conflitos e desequilíbrios interiores, que por vezes interferem nas relações com o mundo exterior.

Muitas são as mulheres que, após uma ostomia ficam abaladas física e emocionalmente, sentindo-se menos sensuais, situação que interfere negativamente na vivência da sexualidade.

A sexualidade faz parte integral da personalidade de cada um. É uma necessidade básica e um aspeto do ser humano que não pode ser separado dos outros aspetos da vida. Sexualidade não é sinónimo de coito e não se limita à presença, ou não, do orgasmo. Sexualidade é muito mais que isso. É a energia que motiva a encontrar o amor, o contato e a intimidade e se expressa na forma de sentir, na forma das pessoas se tocarem e serem tocadas.

A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações afetando tanto a vida física como a mental. Se a saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico.

A mulher ostomizada, comumente, sente-se diferente das demais e até mesmo excluída, havendo uma tendência ao isolamento social como forma de diminuir sua exposição e vulnerabilidade. Isso decorre do facto de que todo ser humano constrói, ao longo da vida, uma imagem do seu próprio corpo, que se ajusta aos costumes, ao ambiente em que vive, enfim, que atende às suas necessidades para se sentir situado no seu próprio mundo.

Os sentimentos e atitudes relacionadas com a imagem corporal formam um conceito de corpo que são fundamentais para uma vida social saudável.

As mulheres portadoras de uma ou mais ostomias passam por diversas alterações no seu processo de viver que vão desde a modificação da fisiologia gastrointestinal, até à autoimagem, que é definida como sendo o modo de sentir e pensar o próprio corpo e a aparência corporal. Muitas vezes procuram manter secreta sua condição, temendo serem estigmatizados. Isso afeta as relações sociais e afetivas alterando a forma como manifestam sua sexualidade. Muitas são as situações em que se torna necessária a intervenção de profissionais da saúde para a resolução e formulação de estratégias que visem a reconstrução da autoimagem e da autoestima.

Não esquecer que a mulher ostomizada, para além desta condição de vida que enfrenta, tem outras funções em simultâneo: mãe, mulher , dona de casa , filha e profissão.

Margarida Oliveira – Enfermeira especialista em Enfermagem Comunitária. Enfermeira na UCC Vila Flor/Carrazeda de Ansiães

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