“Momento não é oportuno para convulsão no Douro”

Edifício da Casa do Douro no Peso da Régua | Foto: Eduardo Pinto

Investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, João Rebelo, não entende restauração da Casa do Douro como associação pública de inscrição obrigatória. Na sua opinião, há prioridades bem mais prementes que a alteração do estatuto da instituição

A Região Demarcada do Douro nunca foi propriamente um santuário de paz. De 2015 até ao início deste mês, talvez tenha tido o período mais tranquilo das últimas décadas. Mas as ondas de choque da aprovação na Assembleia da República, no dia 5 de abril, do decreto-lei da esquerda parlamentar que restaura a Casa do Douro como associação pública de inscrição obrigatória voltaram a agitá-la.

“Este não é o momento oportuno para o Douro estar outra vez em convulsão”, critica João Rebelo, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Este investigador foi o coordenador científico do estudo “Rumo Estratégico Para o Setor dos Vinhos do Porto e Douro”, apresentado em 2018.

Não quer entrar na esfera política das decisões sobre a Região Demarcada do Douro, mas, mesmo assim, salienta que “não fará muito sentido” a alteração estatutária da Casa do Douro, porque, na verdade, “há outra preocupações”.

João Rebelo sublinha repetidamente que a grande prioridade é “reduzir custos de contexto”. Porque “é preciso valorizar mais o vinho e vendê-lo melhor” e “criar mecanismos que levem a uma redistribuição do valor criado pelos pequenos viticultores”. Por outro, é preciso “resolver o problema da mão-de-obra”. “Estas são questões que deviam estar em cima da mesa numa regulação inteligente”, reforça.

O vinho do Porto tem mostrado “alguma resiliência à queda das vendas nos mercados internacionais, mas tendencialmente terá problemas se nada for feito”. Já o vinho do Douro com Denominação de Origem Controlada tem tido sucesso em termos de quantidade, mas “o preço médio está muito abaixo da média europeia”.

Ora, estes desafios são alcançados “através da criação de reputação coletiva”, ou seja, de uma “imagem de marca forte da região”, para que os consumidores “assumam a qualidade” dos vinhos e estejam disponíveis para “pagar o preço justo”. Daí que, insiste, “impor uma organização de cima para baixo não me parece a forma mais adequada” para a região. “Não percebo, sinceramente, não percebo. Só se houver outras razões que eu não consigo alcançar”.

Por Rádio Ansiães

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