Esgoto já é tão pouco que seca a caminho da ETAR


António, Assunção, Flávia e António Ruas são dos que resistem em Paradela de Guiães
Foto: Eduardo Pinto

É um sinal do despovoamento no interior do país em geral e do Douro em particular. No concelho de Sabrosa, por exemplo, há condutas de saneamento básico que já pouco uso têm. O esgoto é tão escasso que seca pelo caminho e não chaga à Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR).

O presidente da Câmara, Domingos Carvas, diz-se apreensivo. “Criámos todas as condições para morarmos cá (água, saneamento, eletricidade, comunicações, gás, etc.) e isso não tem servido para estancar a sangria populacional”. O também vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM-Douro) alarga o problema à região: “Temos aldeias e vilas nos 19 concelhos repletas de investimento nas quais temos cada vez menos gente.”

Da teoria à realidade basta-lhe dar o exemplo do que se passa com ETAR do concelho a que preside. “Temos tantas que algumas delas já nem trabalham. O saneamento já não chega lá. É tão pouco que seca na conduta!” Situação “dramática” que se aplica, entre outras, à aldeia de Paradela de Guiães onde só vivem algumas dezenas de pessoas. Fizeram-se “investimentos avultados” para a dotar de saneamento básico, à volta de “300 mil euros” e hoje “quase não tem uso”. Não deixa de ser irónico para as populações de outras paragens que nunca o tiveram.

Domingos fica a pensar que, “se calhar, todos os responsáveis pelo território não fizeram tudo a montante para inverter a sangria que vem desde os anos de 1970”. Apesar de todos os investimentos feitos na melhoria da qualidade de vida de quem vive na área da CIM-Douro, os 19 municípios continuam a perder população todos os anos.

Apenas Vila Real mantém os residentes à volta dos 50 mil, de acordo com os dados da Pordata a 31 de dezembro de 2017. Desde 1981, a população baixou de 261.714 para 192.046. São menos cerca de 70 mil residentes em 36 anos.

Domingos Carvas acentua que embora tenha de se discutir, “o assunto de amanhã já não vai ser o investimento, vai ser a falta de pessoas.”

Só os mais velhos permanecem na maior parte das aldeias do Douro

“Aqui quase só já há inválidos”. O desabafo daquela mulher de rosto carregado, que esconde o nome à saída de casa em Paradela de Guiães, Sabrosa, mais não é do que uma forma de dizer que só não vai embora quem está preso à terra ou não tem perspetivas de melhor futuro noutra qualquer.

É preciso percorrer quase toda a aldeia para encontrar alguém nas ruas, onde abundam casas abandonadas, algumas em ruínas. Na década de 1960 chegaram a viver ali à volta de 500 pessoas. Os Censos de 2011 revelaram 103 (quase metade com mais de 65 anos) e hoje serão menos duas dezenas, nas contas de cabeça de António Carvalho, 65 anos, nascido e criado naquela terra onde tem as vinhas que lhe garantem o sustento e que anda a podar por estes dias. “Há aí casas boas de xisto, tudo a cair aos bocados, uma pena”, lamenta.

A mulher, Assunção Oliveira, que anda “há 45 anos a aturar este maroto”, relembra a sua infância: “Éramos 80 crianças e hoje só há uma”. Mais: “Tínhamos extensão de saúde e fechou por falta de utentes. Já nem o café abre todos os dias. Vão lá ao meio-dia uns quatro ou cinco… Os dias por aqui são de solidão”. “A gente entra por uma porta, sai por outra e não vê uma mosca”, completa António Ruas, 70 anos.

“O senhor venha cá em agosto”, desafia Flávia Barros, mulher de Ruas. No mês em que os emigrantes regressam para uns dias de férias “isto anima e de que maneira!” José Manuel Soares, 60 anos, nem espera pelo verão. Está por estes dias em Paradela. “A minha mãe está um pouco doente e viemos tratar a vinha”. Mas há de voltar para França. “Gosto muito disto, mas já não me consigo ver a viver aqui em permanência. Tenho de ter mais movimento”.

A mulher, Manuela Soares, reformada como ele, até já se queria ter ido embora. “Agora nem o café está aberto. Ninguém sai de casa e isto fica um deserto”, lastima. Mabília Soares, 69 anos, tem cá a filha, o genro e o neto de seis anos. “Dias mais felizes” numa terra despovoada, mas onde gosta “muito” de viver, apesar de tudo.

Por Eduardo Pinto

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